Luanda, uma tarde quente dos anos 90.
Naquele tempo, a infância não cabia em telas. Não haviam telemóveis, internet ou distrações digitais. A televisão oferecia um canal, TPA, e os brinquedos, na maioria, eram inventados com as próprias mãos. Para brincar, era preciso sair de casa, juntar-se aos outros. Por isso se dizia: vizinho é família. E era mesmo.
Eu estava com menos de 10 anos na época e quando saí de casa para mais uma tarde de brincadeiras. Poucos metros adiante, encontro um vizinho — família — segurando um pedaço de pão com queijo e fiambre. O cheiro era tentador. Instintivamente, estendi a mão.
Congelei.
Um ensinamento ecoou de imediato na minha cabeça: não pedir.
Antes que eu reagisse, ouvi a voz do meu pai, do outro lado da estrada. Fria. Atenta. Como sempre.
Chamou-me. Aproximei-me.
Ele: O que foi que eu te ensinei?
Eu: Não pedir — respondi, quase num sussurro.
Ele: Em casa não tens comida?
Eu: Silêncio.
Sem dizer mais nada, chamou-me para acompanhá-lo até à padaria mais próxima. Observava em silêncio enquanto ele colocava pães no saco: um, dois, três… dez. Eu já sabia. Criança aprende rápido quando o medo ensina.
Em casa, a sentença foi simples e definitiva:
Pediste porque tinhas fome. Então aqui tens. Dez pães. Come tudo. E nunca mais voltes a pedir.

Seguiu-se o terror. Um menino de pouco menos de 10 anos, diante de dez pães enormes, sem água, sem ajuda. Era impossível. E, ironicamente, aqueles pães não tinham queijo nem fiambre.
Hoje, adulto, percebo o impacto daquele momento. Talvez seja por isso que raramente espero algo de alguém. Mesmo quando é meu direito, quase nunca peço.
Num mundo onde se diz:
Bebé que não chora, não mama.
Aprendi cedo a engolir a fome — não de pão, mas de pedir.
Se a lição foi justa, não sei dizer. Sei apenas que ficou.










