Esta é minha história sobre expectativas, a dureza da realidade e o paradoxo de um sistema que exige maturidade de quem nunca teve a chance de amadurecer.

O Diploma Vermelho e a Ponte Invisível

Foram sete invernos rigorosos na Rússia. Sete anos de uma dedicação que beirava a obsessão: Em 2 anos, 120 provas, mais de duas mil horas de estudo e um único propósito: servir. Eu queria ser um cidadão íntegro, o orgulho da minha família e um profissional de excelência para o meu país, Angola.

Na Rússia, conquistei o que poucos alcançam: o Diploma Vermelho. É a honra máxima, o símbolo da perfeição acadêmica. Notas máximas, comportamento exemplar, um currículo impecável em Engenharia de Automação e Instrumentação. Eu era, no papel, o engenheiro que qualquer nação em desenvolvimento desejaria.

O Regresso e o Silêncio

Voltei para casa com a esperança na bagagem. As notícias diziam que Angola precisava de talentos, que buscava especialistas no estrangeiro. Mas, ao chegar, a realidade bateu à porta com o som do silêncio.

Um ano se passou. Depois dois, três, quatro, cinco anos, só então o telefone tocou. Era uma das maiores mineradoras do país.

“Encontramos o seu currículo. O seu perfil é exatamente o que procuramos” — disse o recrutador.

Naquele instante, o tempo parou. 157 milhões de segundos de espera para, finalmente, estar a um passo do início de minha caminhada.

O Confronto

Preparei-me como se fosse para a prova final da minha vida. Estudei a empresa, treinei a fala, a postura, a indumentária. Eu não era mais o jovem recém-licenciado; era um homem maduro, forjado pela paciência.

A entrevista começou com forte introdução e corria bem, até que surgiu a pergunta que congelou a sala: — “O seu perfil é excelente, Aguinaldo Miguel. Mas diga-nos:

Já tem experiência na área industrial? É que o currículo que temos aqui é de cinco anos atrás.”

O ar pareceu faltar. Respondi com uma calma que escondia a minha frustração: — “Da mesma forma que a vossa empresa não me deu uma oportunidade há cinco anos, todas as outras fizeram o mesmo. Negaram espaço a um jovem de 24 anos com mestrado e vontade de trabalhar. Se tivessem me contratado naquela época, hoje eu seria o especialista experiente que vocês procuram.”

O silêncio que se seguiu foi pesado. O recrutador tentou amenizar com uma frase clichê: — “Sabe, Miguel… a ponte entre a Universidade e o Campo de Trabalho é muito longa.”

Pensei: Como posso atravessar essa ponte se os guardas no portão não me deixam dar o primeiro passo?

O Valor do “Não”

O desfecho foi o golpe final. Ofereceram-me dois anos de estágio não remunerado, sem qualquer garantia de contratação futura. Um homem com sete anos de formação russa e cinco de espera, convidado a trabalhar de graça.

“Não, obrigado” — respondi, mantendo a dignidade que o Diploma Vermelho me ensinou.

Naquele dia, entendi que o mercado é, por vezes, um lugar cego.
Entendo que Angola tem as suas particularidades.
Entendo que vagas têm as suas hierarquias.
Mas, quando penso a respeito, vem a dúvida: talvez em outro lugar, com outras pessoas, o mérito não fosse apenas um papel colorido, mas o início de um futuro.

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